:: Minha cirurgia ::

 
A Cirurgia...
 
 
Hospital São Lucas, dia 27/05/2005, 07:30 h da manhã.
Com uma felicidade incontrolável, de mãos dadas com meu marido, dei entrada nesse hospital. Estava pronta para a realização do meu maior e grande sonho!
Com todos os trâmites legais de internação concluídos, dei entrada no quarto coletivo 205. Minha mãe e sogra já haviam chegado nesse momento. Foi feita a lavagem estomacal e permaneci deitada esperando a equipe médica chegar, depois do banho e uso de um sabonete líquido especial no abdome. x

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Drª Adriana foi a primeira. Me examinou rapidamente, perguntou como estava, pegou os exames e perguntou se estava pronta. Minha resposta foi que estava pronta ha 3 longos anos já.
Ela riu.

Em seguida Drº Marco Antônio chegou e mais uma vez perguntou se estava pronta. Pegou meu termo de consentimento assinado e disse que nos encontraríamos no Centro Cirúrgico - 8º andar. Já com a camisola do hospital, fui levada de cadeira de rodas por um maqueiro - que hoje é meu amigo e aluno da escola onde trabalho - até a porta do CC.
Calcei as sapatilhas, a touca, dei um beijo e um abraço em meu marido e minha mãe e entrei naquela ala fria e impessoal do hospital sem olhar para trás. Meu coração ia batendo alto de tanta felicidade e emoção! Eu sorria feliz! Jamais esquecerei esse dia!

Mas também nunca vou esquecer da apreensão e medo que vi estampados nos olhos do meu marido e minha mãe!

Entrei no CC olhando tudo, concentradíssima! Tomei a raquidiana e não senti dor alguma. Nem medo, nem nervoso, nem nada! Deitei calmamente com a camisola por cima aberta e Drº Marco segurou minha mão, mas já absolutamente concentrado no que ia fazer.
Ele olhava fixamente para minha barriga e apalpava todo meu abdome com a mão direita enquanto com a outra segurava meu braço. Vez ou outra passava a mão na minha cabeça para me confortar. Mas notei claramente a grande concentração dele já na cirurgia. Isso me chamou muito a atenção! Senti muita segurança, em nenhum momento tive receio!

Lutei para prestar atenção em tudo até apagar, para poder guardar na memória...na verdade eu estava curtindo cada segundo, porque eu havia sonhado tanto com aquilo que não queria perder NADA.
Quisera eu poder assistir a cirurgia acordada!
Mas infelizmente não era possível.
Lembro sempre do carinho com que fui tratada dentro do CC pelos anestesistas e por toda a equipe.
Apaguei!

Como era de se esperar a cirurgia transcorreu muito bem. Lembro que para me acordarem, perguntaram se eu conhecia aquela gente toda que tinha ligado para o hospital, do Brasil inteiro e até de fora do Brasil. Eu fiz um sinal positivo com o dedo e a equipe sorriu dizendo que eu havia congestionado a linha do centro cirúrgico (risos). Nessa hora pensei que se todos tinham torcido e orado, nada poderia dar errado.

Enquanto ia para o CTI, fui reclamando que sentia falta de ar. Tinha um bolo na garganta que não me deixava respirar direito, por causa da entubação. A Anestesista foi conversando comigo e dizendo que era psicológico e que eu deveria respirar calmamente, já que a minha oxigenação estava ok.

Nessas alturas Drº Marco já tinha conversado com minha mãe e marido e entregue a pedra que havia retirado da vesícula, junto com a Gastroplastia. Finalmente estava livre daquela vesícula e com o estômago pequeno, de gente normal.
Enfim eu estava gastroplastizada! Minha cirurgia durou cerca de 2 horas e meia. E eu estava muito bem, absolutamente sem dores!

Não foi fácil chegar no outro dia...até a anestesia passar, eu dormia e acordava o tempo todo. Tentava observar o CTI e os enfermeiros, mas logo apagava.
Com um pouco de esforço me recordei da hora que cheguei: os enfermeiros haviam me colocado na oxigenação, porque eu continuei reclamando da falta de ar depois que os médicos foram embora.
Me limparam, cobriram - por causa do frio enorme que eu estava sentindo - me fizeram um raio x e mais alguma coisa que eu não lembro agora e me deixaram em paz para dormir. Lembro que meu enfermeiro nessa noite foi Passimar - um enfermeiro amigo da Maria Cristina e meu também - que me apoiaria muito nos momentos que eu precisaria depois. Ele ainda não havia me reconhecido no escuro do CTI, mas quando eu segurei na sua manga da blusa, puxei e balbuciei seu nome, ele me olhou fixo e sorriu.

Foi nessa hora que ele me reconheceu.

De madrugada o efeito da anestesia passou por completo. Daí eu passei o tempo todo acordada olhando tudo e vendo os enfermeiros dormindo no banheiro e outros fazendo a ronda. Pior era ouvir uma paciente mais grave que estava entubada e que parecia que ia sufocar.

Quando o dia raiou, dei graças a Deus. Aí veio a troca de plantão e o banho, que para desespero de muitas moçoilas gordinhas que ainda vão operar, foi com um enfermeiro (risos). Mas você está em um estado tão "diferente", que sinceramente tomar banho no CTI é absolutamente NADA! Nem dá para você ficar com vergonha, porque a coisa é toda muito profissional.

Depois do banho sentei naquela cadeira da foto abaixo e decidi que só saía de lá para meu quarto.
E assim foi.

Quem me deu alta foi Drª Deise. Nesse meio tempo meu marido já havia pedido um quarto particular para eu ficar mais à vontade. Foi pago somente a diferença ao hospital. Cerca de 80 Reais.
A primeira coisa que fiz ao chegar no quarto foi caminhar. Eu me sentia bem - dentro do que era possível - e queria logo seguir à risca tudo o que sempre havia pesquisado e aprendido.
Comecei com a ingestão dos líquidos 11 horas da manhã e saí umas 3 vezes no corredor, dando pequenas caminhadas até o anoitecer. Luciano ia empurrando os medicamentos e me segurando por causa da tonteira. Ainda no sábado tive muitas visitas...foi uma verdadeira festa!
As meninas se reuniram e fizeram uma surpresa.

As meninas: MC, Luly, Rutinha e Fafá.

Também vieram Cris, Ingrid e minha amiga Mônica. E outras visitas mais cedo.

Conversei bastante nesse dia, mesmo sem poder falar, dei risadas e ainda caminhei mais. Foi justo nessa hora em que o quarto estava mais cheio que Marco Antônio chegou (risos)!

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Quando todos foram embora Drª Deise veio dar uma olhada em mim. Equipe muito competente, essa do Instituto Barroso, sem dúvidas!
Drª Adriana veio às 20 horas e brigou muito porque encontrou a porta do quarto trancada. No único momento que eu resolvi trancar a porta para trocar de roupa ela chegou, que azar o meu! Ela ficou muito nervosa, brigou muito comigo e me fez caminhar novamente, achando que eu tinha ficado o dia todo deitada.
Saiu pisando duro até a equipe de enfermagem e lá os enfermeiros a tranquilizaram dizendo que eu tinha caminhado a tarde inteira (risos). Acalmou.
Voltou e me deu umas 3 colheradas de suco de maçã na boca (argh!) , me dizendo que em hospital NUNCA se deve trancar a porta do quarto!
Anotem isso (risos).

Depois desse episódio, ainda caminhei mais uma vez e me recolhi para dormir às 22 horas. A única coisa ruim é que você já sem a sonda precisa urinar toda hora, daí tem que ficar levantando o tempo todo, o que não é muito bom para quem tem cirurgia aberta e é grande obeso como eu era. Mas meu problema foi solucionado pelo Luciano (meu marido), que passou a noite inteira me trazendo a comadre.

Domingo recebi alta do hospital e fui para casa com meu pai, irmã, cunhado e marido.
Enquanto aguardava meu pai chegar, dei outras caminhadas pelo corredor, feliz da vida, mas ainda tonta. Estranhei um pouco essa tonteira, mas estava tão feliz que não me prendi a esse detalhe.

Foi nessa hora que eu senti o segundo arrepio forte na minha nuca.
O primeiro eu já havia sentido na noite anterior, enquanto caminhava no corredor depois que todo mundo foi embora.
Claro que estranhei também esse arrepio estranho!

Mal sabia eu que a infecção já dava sinal...
E mal sabia eu que teria que retornar ao hospital...

 

A fístula...

Em casa continuei sentindo os arrepios estranhos na nuca e uma tonteira estranha, como se algo sugasse minhas forças.
Na terça eu já sentia uma fraqueza muito forte e cochilava o tempo todo. Minha mãe já estava preocupadíssima, mas como eu parecia bem, não ficamos pensando muito nisso. Nesses meus cochilos eu sonhava muito com um tio e a esposa - que são evangélicos - e no sonho ambos sempre em volta de mim de mãos dadas e orando fervorosamente. Como espiritualista que sou, comecei a "cismar" demais com isso e cheguei a comentar com minha mãe.
Foi aí que aconteceu o "primeiro milagre": a minha consulta de revisão, que seria na sexta, foi antecipada "do nada", para a quarta-feira. Lembro que isso me aborreceu muito na hora, porque eu queria ter perdido mais peso na primeira consulta e sendo a consulta na quarta, sairia no "prejuízo" em termos de peso eliminado. Que bobagem, gente! Ali Deus já estava agindo por mim e eu, ingrata, reclamando!

Mal sabia eu que se não fosse essa consulta antecipada, talvez hoje eu não estivesse aqui...

De terça para quarta, aconteceu algo que decididamente me chamou a atenção e me deixou totalmente em alerta! Vi, com os "olhos da alma", Drª Adriana entrando em meu quarto acompanhada de um rapaz alto e jovem, todo de branco, como se fosse um aluno. Ela me "examinou"", embora eu não precisasse fazer nenhum esboço para isso e conversou algo com o rapaz. Após isso ambos saíram do meu quarto.
Eu estava meio adormecida e imediatamente despertei totalmente após essa "visão".

Esse foi o sinal para que eu me "preparasse espiritualmente" para o que viria, pois pela minha "experiência no assunto", sabia que tinha "visto" uma projeção da alma da Drª. Orei muito ali na minha cama de madrugada, pedi a Deus que fosse apenas um "estudo dela", digamos assim, e nada mais sério. Mas meu coração já sentia que alguma coisa estava fora do lugar. Acordei Luciano e falei que tinha "visto" a Drª Adriana.
Meu coração estava apertado demais...

Posteriormente pude entrar em detalhes com ela no hospital sobre isso, que muito se interessou pelo assunto, pois comunga da mesma crença que eu...

Na quarta, no consultório, me sentia bem, conversei, sorri muito com as bobagens que meu pai falava, enfim, estava me sentindo MUITO BEM MESMO! Mas quando Aline me disse que vinha medir minha temperatura, imediatamente essa condição mudou: me senti fraca de novo!
Ao tirar o termômetro, foi constatado uma febre de 38,8...então me passaram na frente dos outros pacientes e Drº Marco prontamente me atendeu e me examinou toda.

Essa febre repentina, sem dúvidas, ficou marcada para mim como o segundo milagre...


Volta ao hospital...

Drº Marco me examinou dos pés à cabeça...me deu um remédio para febre e fez uma ligação. A seguir pediu que fosse ao São Lucas para exames, pois queria saber o motivo da febre. Me entregou nas mãos de um médico amigo que estava de plantão nesse dia e falou que assim que atendesse todos os pacientes iria para lá. No São Lucas fiz TODOS os exames de praxe. Logo Drª Deise chegou, olhou a cicatriz procurando seroma, mas estava seco. No exame de sangue acusou a infecção prontamente, então me enviaram para o raio x. Feito o exame, o médico que estava cuidando de mim ligou para Drº Marco, que ligou imediatamente para Drª Deise! Daí então foi só o tempo dele chegar ao hospital e me enviar novamente para o raio x, porque ele queria ver o trajeto do líquido e a fístula.

Já no primeiro raio x, pela cara do técnico e da Drª e pela minha experiência de tudo o que já tinha visto sobre Gastroplastia, eu já sabia que tinha uma fístula. Tanto que dei a notícia logo à minha irmã e a meu pai e expliquei detalhadamente o que eu tinha:

- Estou com fístula e provavelmente vá voltar à mesa de cirurgia para uma limpeza, porque estou sem dreno e para a equipe dar uma olhada. Fabiana, por favor, dê a notícia à mamãe com calma.

Essa foi a minha primeira frase ao sair do primeiro raio x.

Mais tarde, no segundo raio x, Drº Marco confirmou à minha família - que já estava toda no hospital, porque eu já havia mandado vir - o que eu já havia dito à eles. Eu também já havia mandado trazer roupa e já tinha resolvido com Luciano alguns problemas de ordem pessoal, manifestando minha vontade para que tudo fosse feito do meu modo, de forma que eu ficasse no hospital sem nenhuma preocupação.

Fui muito fria e objetiva. Mas senti muita raiva de estar de volta ali e Drº Marco várias vezes me afagou o ombro me dando forças. Lembro que perguntei a ele que horas iríamos para o CC e ele estranhou, porque ainda não havia me dito nada, mas eu falei que sabia todos os passos que seriam seguidos. Ele sorriu.
Pediu calma.
Eu disse que não estava nervosa. Perguntei pelo tamanho da infecção, ele disse que não era tão grave "ainda", mas que seria necessário "olhar" melhor. Não havia CC disponível e ele foi direto ao Diretor do hospital.

Chamei um primo - Alan, que sempre me pareceu o mais frio e calmo da família - e exigi dele duas coisas: que se morresse não permitisse escândalos da família contra o Instituto Barroso e que desse apoio à minha mãe. Ele perguntou o motivo daquilo e eu falei que só haveriam essas duas possibilidades, dependendo do tamanho da infecção: fechamento da fístula depois de um tempo de hospital ou morte em decorrência da infecção.


Segunda cirurgia...

Ao mesmo tempo que pensava nisso como opção - morte - algo me dizia que isso não ocorreria. Sabe quando você é cumpridora dos seus deveres, sempre fez tudo certinho, sempre caminhou corretamente, ajudou o próximo, e blá blá blá?! Pois é, eu "sentia" que eu ainda tinha muita coisa para viver. E foi com esse sentimento que entrei no CC pela segunda vez, meia noite e cinco minutos do dia 2 de junho de 2005.

Dessa vez não usei raquidiana e demorei bastante para apagar. Acordei no finalzinho da cirurgia e ainda ouvi a equipe reclamando do azul de metileno, que havia saído no dreno depois de mais de meia-hora. Eles abriram meu abdome, limparam, pontearam novamente ali na linha de grampo, no intuito de tentar pegar a fistula, mas como não era "visível" a olho nu, não obtiveram êxito, já que depois de costurada o azul saiu no dreno. Foi nessa hora que eu acordei, com um desabafo da Drª Adriana reclamando que ia dormir no CC (risos).

Prepararam tudo para me abrir pela terceira vez. Nessa hora, eu já acordada, disse a seguinte frase:

- Não me abram pela 3ª vez, porque eu não vou aguentar...

Repeti a mesma frase 3 vezes. Não sei porque disse isso nem muito menos da onde tirei essa frase. Mas disse e disse 3 vezes!

Foi feito um silêncio muito grande no CC após isso, eu não sei se fruto da minha imaginação ou se porque apaguei de novo, mas lembro que de repente Drº Marco estava me dizendo que tinha sido tudo bem e que não me abririam de novo, que eu ia pro CTI. Posteriormente ele me explicou que houve silêncio porque haviam saído do CC para conversar com o Barroso, que estava em outra sala e que haviam decidido pelo fator "tempo", já que minha fístula era mínima.


CTI...

Novamente sem dor cheguei ao CTI, de madrugada. Estava bem desperta e Drº Marco pediu a permanência tanto da minha mãe quanto de Luciano lá comigo.
Foi um fracasso a compainha dos dois! Luciano teve uma crise de choro e minha mãe idem. Ambos tiveram que sair. Drº Marco ficou na ante-sala conversando com os dois até 4 horas da manhã. Antes de ir embora voltou, segurou minha mão, pediu para pensar positivo e me recuperar logo, para sair dali. A frase que mais marcou: "Lute comigo pela sua vida". Pedi para Luciano entrar mais uma vez e falei com ele que eu NÃO IA MORRER! Pra ele parar de chorar e voltar nas visitas todos os dias com a minha mala. Pedi para minha mãe ir para casa que Luciano daria notícias!

Até hoje eu fico pensando na frase do Doutor e no choro do meu marido e a única coisa que me ocorre é que para eles (equipe e família) eu devia ser uma incógnita. Aliás toda infecção é uma incógnita! Mas eu realmente não entendia assim, me sentia BEM e "sentia" dentro de mim que ia ficar muito bem. Nunca soube explicar isso direito a ninguém, mas eu tive uma força/energia imensa dentro de mim que jamais poderia explicar com palavras. Ainda nessa madrugada tive a presença perfumada da minha avó, muito triste e chorosa, me olhando aos pés da cama. Daí eu me preocupei um pouco, confesso à vocês. Mas adormeci.

Paciência e persistência...

Os dias que se sucederam foram estranhos, mas faço questão de lembrar de cada detalhe, para ajudar pelo menos na minha evolução diária e pessoal...
Queria orações e sabia que precisava delas, então dei minha senha e e-mail a Maria Cristina e pedi que ela postasse aqui na página as notícias...

Ali foi o ponto chave! As orações começaram imediatamente a meu favor e eu ia, a cada dia, me fortalecendo mais. Minha família inteira esteve comigo no CTI...pude ver minha mãe e pai juntos depois de tantos e tantos anos! Ali tive a certeza que Deus me usava, mesmo na doença, para mostrar a eles que tudo poderia ser diferente...
Poucos meses depois meu pai viria a desencarnar e minha mãe teria então a prova de que "fazer as pazes", dentro do limite dos dois, foi a melhor solução para ambos.
E que sem sombra de dúvidas Deus agiu para que tudo corresse da forma que Ele queria, mesmo que tenha sido através da minha complicação.

No terceiro dia no CTI, fiquei chateada com Marco Antônio, porque TODO dia ele me dizia que eu ia para o quarto! Foi preciso Drª Adriana me dizer claramente que EU NÃO IA, porque ainda havia uma infecção e era cedo para ter alta. A equipe preferiria pecar pelo zelo excessivo a descuidar me liberando logo, e eu ter que retornar ao CTI.
Assim fiquei mais tranquila, porque gosto de saber o que está acontecendo. Mesmo sendo ríspida com MA naquele dia, ainda assim fiquei tranquila. Havia lhe dito que acontecesse o que acontecesse, o ideal era SEMPRE ele me dizer a verdade, porque eu era forte e suportava TUDO! A verdade SEMPRE, mesmo que fosse dolorida!
Acho que ele compreendeu.
Nesse dia vi o "meu sol" (Drº Marco), muito sem graça pela primeira vez. Mas a partir dali ele foi sempre claro e objetivo e tudo o que eu perguntava tinha uma resposta precisa, sem rodeios e isso muito me confortava.
Posteriormente conversamos sobre isso e ao longo do tratamento fui percebendo seu modo de agir comigo e com qualquer paciente: Drº Marco acredita muito na Cura X Emocional. Para ele o paciente tem que estar com o emocional em ordem para a cura chegar definitivamente e rápida. Era por isso que vivia blefando ao me dizer que eu ia para o quarto. Fazendo assim ele acreditava que eu animaria e me recuperaria mais rápido.

O que ele não sabia era que para mim aquilo ali era questão de tempo e que logo eu sairia dali. O que ele não sabia é do quanto eu sou forte e determinada! E sabendo o que podia me acontecer ou não, mais fácil para mim seria me curar! Cada dia que passava mais certeza eu tinha dessa cura, sentia dentro de mim com clareza que estava ficando bem.

Mas...eu tinha a tal infecção ainda...o dreno vazava bem...e até febre, segundo o CTI, eu tive na segunda noite. Mas se tive, não percebi!
Desenvolvi um pouco de seroma e Drº Marco veio retirar com seringa duas vezes. Nesse dia a equipe desconfiava que podia ser da fístula esse vazamento. Levaram o material para análise. Ele também fez meu acesso no pescoço para a enteral e fez com o maior carinho do mundo!

Os dias passavam e eu ia me sentindo muito bem! Conversava com os enfermeiros...fiquei amiga do Leo, que era o que mais me dava banho e lavava meus cabelos...conversava com Passimar...via televisão...ficava desesperada quando alguém morria...risos...dava força para as bariátricas que chegavam de vários médicos e que porventura ficassem ao meu lado no CTI e chorando (risos)...e NUNCA reclamava de nada! Eu sou muito calma e uma das minhas maiores qualidades é aceitar as coisas como têm que ser...
Sabia o que estava acontecendo, sabia o caminho para obter a cura, estava muito bem acessorada, bem medicada, com dreno, lúcida, então nada podia dar errado!

...Fica aqui, entrelinhas, meu conselho a você! Se porventura tiver alguma intercorrência na Gastroplastia tenha calma, paciência, pensamento positivo e fé em Deus acima de tudo...

No quinto dia de CTI, a enfermeira chefe - Luciana - já estava muito solidária à mim. E junto com ela muitos enfermeiros da equipe, que elogiavam meu esforço e principalmente minha calma...então todos começaram a torcer muito para eu ir embora logo dali. Luciano ia e vinha nos dois horários de visita...parou completamente de trabalhar para ficar ao meu lado. Todo dia ele ia e vinha às 10 e às 15 com a minha bolsa cheia de roupas, doido para que eu saísse do CTI! Com tanta torcida, eu fui para o quarto no sétimo dia. E sair ali do CTI numa cadeira de rodas - empurrada pelo maqueiro que hoje estuda na escola que eu trabalho - foi o segundo dia mais feliz da minha vida!
E todos do CTI ficaram felizes com a minha ida para o quarto (risos)!


Vencendo a fístula...

No quarto nos primeiros dias você fica um pouco insegura, afinal de contas você ainda inspira cuidados...mas foi dando tudo certo.
Pior coisa era ficar empurrando aquelas medicações todas - e eu fiz questão disso imediatamente - porque temia uma nova complicação, por ser muito obesa.
Fazia os exercícios respiratórios todos os dias...andava todos os dias...tomava sol todos os dias...família e amigos estavam sempre comigo. Recebi muita visita de leitores mudinhos desse blog (olha que interessante!) e dos amigos que fiz aqui. E assim como no CTI, recebia a visita da equipe todos os dias e de MA todas as noites ou madrugadas...risos. Todas as horas eu tive esse médico ao meu lado, me dando forças! Por isso eu amo tanto Drº Marco! Tenho profundo respeito e admiração pela sua competência!

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Assim que cheguei ao quarto, conheci minha vizinha de corredor, a Graciele: uma menina linda, que estava morando ali ha uns 2 meses já, com 2 fístulas e completamente sem apoio, não fosse o Clínico Geral da sua equipe que a visitava esporadicamente.
Sem nenhuma informação sobre a cirurgia, sobre a vida após a cirurgia, e também até um pouco por fora do que na realidade estava lhe acontecendo de fato, Graciele ia seguindo, hora forte e absoluta dentro daquele hospital, hora frágil e indefesa, por não saber o que o futuro ainda lhe reservava... Pensar na situação da Graciele me ajudou demais a não pensar na minha situação como algo tão importante...creio que quanto menos importância você dá a algo, menos importante esse algo será na sua vida...Arregacei as mangas e tratei de ajudar, dentro do que era possível, essa menininha!

Recebi alta da fisioterapia respiratória e a cada dia um remédio ia saindo de mim. Fiz o primeiro azul de metileno no sétimo dia no quarto e nada vazou! Senti a equipe toda feliz, porém ainda um pouco temerários...receosos e precavidos.
Mais alguns dias na mesma, até fazer outro azul de metileno.
Nada no dreno!
A equipe aparecia então mais animada para me visitar, era visível! Bem sorridentes, a expressão de todos era bem menos carregada! Os médicos também exultam quando seus pacientes estão bem!

Mas...como ninguém é uma fortaleza inatingível, em um desses dias eu tive uma crise nervosa!
Transbordei!
Eu sentia que estava bem, tinha certeza pela expressão da equipe que estava melhor e etc. Só que nesse dia acordei mal, já não aguentava mais a enteral no pescoço me repuxando, aquele troca-troca de soro, os telefonemas diários me aborreciam - me perdoem dizer isso aqui, porque tenho certeza que pelas orações de MUITOS de vocês que estão lendo isto agora foi que eu saí vitoriosa dessa complicação - mas eu decidi colocar aqui a verdade. E não é difícil para vocês entenderem, tenho certeza.
Também o fato de saber que ia sair e Graciele ia ficar estava me consumindo por dentro, eu estava muito fragilizada com isso porque havia me apegado demais à ela.
Eu realmente estava esgotada nesse dia! Foi uma crise horrível, chorei o dia inteiro, queria ir para casa e sozinha, nem Luciano queria ver na minha frente! Ele havia abandonado tudo para estar do meu lado todos esses dias, já estávamos fora de casa ha uns 16 dias e nesse dia eu abusei, coitado!
Era visível o esgotamento nervoso dele também, mas ele segurou as pontas até o último minuto por mim! Houve um momento que alguém ligou e eu gritei que não ia atender! Foi um telefonema de Curitiba. Saí empurrando aqueles tubos sozinha pelo corredor, tonta, nem o barulho do tel eu aguentava mais!

Para piorar, um membro da equipe que chegou cedo, percebeu meu estado, agiu rápido e comunicou ao Drº Marco! Então TODOS os demais médicos da equipe vieram me visitar, conversar, tentar me distrair, um por vez, mas sem muito efeito.
Vi 6 médicos nesse dia, um horror (risos)! Fiquei mais estressada ainda porque TUDO o que eu NÃO QUERIA NA VIDA era conversar naquele dia!

Drº Marco só conseguiu chegar de noite, entrou todo sorridente e foi logo dizendo que íamos fazer a Seriografia no outro dia. Eu acho que na verdade ele queria aguardar mais, mas como eu me estressei, ele ficou com medo de "estragar a recuperação emocional" e resolveu partir logo para o exame de fato. Mal sabia ele que o estresse nada tinha a ver com fazer ou não, estar cicatrizada ou não, enfim, eu simplesmente transbordei porque ninguém é de ferro e eu já havia me mantido serena o tempo necessário para me dar ao luxo de estressar um pouco, né - risos. Nessa noite, tive a presença da minha querida, na cabeceira do meu leito e ela me disse - ...tenha calma minha filha, você vai ficar boa, você vai pra casa, vó está aqui com você... - chorei mais ainda, mas uma sensação maravilhosa de paz me invadiu e eu adormeci finalmente.

No outro dia, novo passeio com o maqueiro - o que eu conheço até hoje.
Enquanto o exame se realizava, observei bem a expressão do Drº Marco e quando ele disse YES!, sorrindo, eu vibrei também! A fístula havia fechado! A partir desse dia foi maravilhoso...recebia a visita e os parabéns de todos os médicos e até Drº Barroso apareceu todo sorridente...sentou na minha cama e conversamos um pouco...ele falou que estava bem fechada a fístula e agora era questão de mais uns poucos dias. Drº Marco retirou a enteral e introduziu dieta líquida coada total. Mas não retirou o acesso por 2 dias...ficou observando a minha dieta, meu dreno e minha medicação foi saindo gradativamente nesses dias, por último o acesso do pescoço. Recebi alta numa terça-feira de manhã, mas implorei para ficar mais no hospital, vocês acreditam?! Expliquei que estava com medo e insegura. Drº Marco subiu então para operar e voltou só de noite, dizendo que realmente não era preciso mais eu ficar ali. Tive que ir embora mesmo. Meu pai chegou 19 horas para me pegar, junto com minha irmã. Quando eu pisei os pés na porta do São Lucas, chorei de emoção. A partir dali uma nova etapa da minha vida recomeçou. Graciele ficaria curada uns 6 a 7 meses depois.

Agradecimentos...

A meu pai, que não se encontra mais aqui na Terra...
A minha mãe que tudo fez para cuidar de mim, mesmo sem poder. Abandonou seus afazeres mais importantes para ficar ao meu lado...
Ao meu marido, que foi tudo para mim: meus braços, minhas pernas, minha vida!
Aos meus amigos de fato, construidos através da Gastroplastia, que até hoje continuam do meu lado.
A todos vocês que passam os olhos por essas linhas e que sonham com a possibilidadde da cirurgia.
Digo que vale a pena se voce realmente precisa dela!
Vale a pena se não há outra possibilidade para você!
Hoje tenho outra imagem no meu espelho todo dia pela manhã...e gosto muito do que vejo.